Ansiedade Social: Entre a Verdadeira Identidade e a Performance no Cotidiano

13-09-2024

Autor: Psicanalista Wallyson Reis

A ansiedade social é uma das manifestações mais presentes na clínica contemporânea. Ela emerge com o aumento das demandas de performance no mundo atual, refletindo a pressão interna e externa que sentimos em ambientes sociais. Para entender essa angústia, podemos recorrer a duas figuras que oferecem visões complementares: Donald Winnicott e a noção de performance, como abordada por Lucas Veiga.

O Eu Verdadeiro e o Eu Falso de Winnicott

Winnicott, psicanalista britânico, trouxe uma ideia essencial para compreender a ansiedade social: a distinção entre o Eu Verdadeiro e o Eu Falso. Para ele, a formação da identidade está profundamente ligada ao ambiente em que crescemos, especialmente às primeiras relações com as figuras parentais. Se a mãe ou cuidador, como Winnicott chamava de "mãe suficientemente boa", é capaz de acolher a espontaneidade do bebê sem julgamentos, permitindo que ele experimente o mundo sem uma preocupação constante em agradar, esse indivíduo desenvolverá uma base segura, que Winnicott chamava de "Eu Verdadeiro".

Por outro lado, quando o ambiente é falho, o sujeito sente a necessidade de performar para atender às expectativas alheias, construindo o que Winnicott chamava de Eu Falso. Essa camada de adaptação impede que o indivíduo se expresse genuinamente, criando uma vida marcada por tensões e ansiedade nas relações sociais, onde o medo do julgamento constante pode sufocar sua espontaneidade.

A Performance na Clínica de Lucas Veiga

Aqui, entra o conceito de performance como discutido por Lucas Veiga, que propõe a ideia de que, na clínica psicanalítica, a "performance" é algo que o sujeito faz em diferentes situações sociais, muitas vezes com base em expectativas internalizadas. A noção de que estamos o tempo todo performando – adaptando-nos às demandas sociais – conecta-se de forma profunda com o Eu Falso de Winnicott.

Veiga discute que, em situações sociais, os sujeitos frequentemente encenam papéis que acreditam ser esperados deles, o que gera a ansiedade social quando o sujeito se percebe incapaz de sustentar essa performance. No entanto, a clínica também abre a possibilidade de ressignificar essa performance. Em vez de ser algo que sufoca, a performance pode se transformar em uma expressão autêntica de desejos, sem as amarras impostas pelo Eu Falso.

A Ansiedade Social e a Performance Autêntica

Na sociedade contemporânea, a pressão de performar se intensifica. Redes sociais, ambientes de trabalho e círculos de amizade se tornam palcos nos quais o sujeito se vê constantemente em exibição. O Supereu freudiano, responsável pelas normas internalizadas e pela sensação de julgamento constante, se une à necessidade de se adaptar às expectativas do outro, criando uma ansiedade latente em qualquer interação social.

No entanto, o ato de performar não precisa ser visto apenas como uma extensão do Eu Falso. Quando libertada das exigências internas e externas, a performance pode se transformar em um estado de presença autêntica, onde o sujeito encontra um espaço de expressão genuína. Essa performance do Eu Verdadeiro não busca atender expectativas, mas expressar desejos próprios. Nesse sentido, a performance deixa de ser uma máscara e se torna uma ferramenta de criação e realização de si.

A Clínica como Espaço de Liberdade

Na prática clínica, o desafio é criar um ambiente suficientemente bom para que o sujeito possa gradualmente abandonar o Eu Falso e suas performances alienantes, abrindo espaço para uma performance autêntica, ligada ao Eu Verdadeiro. A clínica torna-se um lugar de experimentação, onde o sujeito é convidado a performar não mais para o outro, mas para si.

Lucas Veiga, nesse sentido, propõe que a clínica não deve ser apenas um espaço de desmascaramento, mas também de produção. A partir do momento em que o sujeito reconhece suas performances como uma forma de expressão legítima de seus desejos, ele se liberta das amarras dramáticas do Eu Falso e passa a atuar em seu próprio palco, exercendo uma autonomia criativa.

Performar como Ato Criativo

A ansiedade social, vista à luz de Winnicott e da performance clínica, nos mostra que a solução não está em fugir da performance, mas em ressignificá-la. Quando a performance é uma extensão do Eu Falso, ela aprisiona. Mas quando está ligada ao Eu Verdadeiro, ela se torna um ato criativo, uma forma de presença autêntica. A clínica, então, se transforma em um espaço de potencialização do sujeito, onde ele pode ensaiar novas formas de existir, performando seus desejos com liberdade e consciência.

Fico feliz que tenha gostado da abordagem! Aqui estão as referências bibliográficas sugeridas para o ensaio, incluindo Freud como uma referência central na psicanálise:

Referências Bibliográficas:

  • Freud, S. (1923). O Ego e o Id. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora.

  • Winnicott, D. W. (1965). O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artes Médicas.

  • Winnicott, D. W. (1971). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora.

  • Veiga, L. (2021). Performance na Clínica Psicanalítica Contemporânea. São Paulo: Editora Psiqué.

  • Veiga, L. (2022). "Performance, Autenticidade e Desejo". Revista de Psicanálise Contemporânea, 8(2), 45-58.

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